South West Township: Um passeio por Soweto

O apartheid foi um sistema de gerenciamento social dos mais nefastos já pensados e praticados. Consistia, basicamente, de uma política de segregação racial, onde todos os serviços (educação, saúde, transporte público, etc) e mesmo circulação urbana (local de moradia, ruas para circulação de pessoas, bebedouros utilizáveis etc) eram separados para uso exclusivo de brancos, negros e “coloureds” (pessoas miscigenadas, ou de outras etnias). Havia escolas e postos de saúde só para brancos e só para negros, calçadas só para brancos e só para negros, ônibus com área especial para negros e para brancos, além de regras sobre locais de moradia, convívio (relacionamento amoroso inter-racial era proibido e punível com prisão) e postos de trabalho. Tudo para garantir não somente a separação total e a não integração entre as etnias, mas também para garantir a superioridade branca, que sempre era beneficiada com os melhores serviços e as melhores garantias estatais. 

 

 

Apesar da segregação racial no país já existir há séculos e a desconfiança e animosidade entre brancos e negros vir desde os tempos coloniais do século 17, o sistema foi colocado em prática em 1948, com a ascensão ao poder da ditadura branca do Partido Nacional. Foi assim que o racismo virou lei.  

 

Do ponto de vista urbano, isso gerava uma organização cruel: as cidades eram reservadas para brancos, enquanto os negros eram alocados em “cidades satélites” de serviços, conhecidas como townships. Johanesburgo, a cidade mais populosa, o centro econômico do país, contava com enormes  townships que a serviam, e entre elas uma ficou muito famosa, a South West Township, ou, Soweto. Sua fama se deveu às revoltas populares das quais foi centro em 1976, onde muita violência e manifestações foram estopim para boicotes internacionais e pressões para o fim do sistema. Soweto também era o local onde morava (quando não estava preso por ser líder do movimento negro) Nelson Mandela. 

 

Soweto costumava ser uma grande favela, mas hoje conta com várias camadas sociais, tendo ainda barracos característicos de ocupações urbanas pobres e desordenadas, casas de classe média de alvenaria, e grandes casas ricas, como a de Winie Mandela.

 

 

Quando eu estava hospedado em Johanesburgo conheci um funcionário do meu hotel, Thuso, da etnia Sotho, com quem fiz amizade e com quem aprendi muito sobre a história do país. Ele me fala da “velha mentalidade” em oposição à “nova mentalidade”, da qual se dizia um entusiasta. Essas mentalidades poderiam ser traduzidas em “segregacionista” e “integracionista”, respectivamente. Ao saber de meu interesse por história e em homenagem a nossa nova amizade, Thuso me convidou para dar uma volta pelo Soweto. Respondi ao convite do modo mais racional possível: “Você está vendo minha cor, né?”. Após rir da minha pergunta, me garantiu que não haveria problema, pois eu estaria com ele. Ok. Partimos.

 

Foi uma visita incrível. Percebi uma coisa digna de nota: as casas grandes, visivelmente ricas, possuíam em seu quintal um casebre de madeira igual aos barracos da parte pobre, da favela. Segundo Thuso, isso fazia parte da cultura: “Nós enriquecemos, mas não queremos que nossos filhos esqueçam de onde viemos. Assim, quando a criança fica um pouco mais velha, deixamos que ela more nesse barraco no quintal, para não ficar má acostumada com o dinheiro”. Emudeci. 

 

Foi em uma dessas paradas, voltando para o carro, que um incidente aconteceu. Atravessando a rua, olhei para o lado errado (a África do Sul possui mão inglesa, ou seja, os carros andam “na contramão” e a confusão para atravessar a rua é constante) e quase fui atropelado. O homem que quase me atropelou parou o carro e gritou, me xingando de demônio branco e dizendo que se eu quisesse morrer ele mesmo poderia fazer serviço. “A velha mentalidade”, me disse Thuso visivelmente envergonhado. Era a primeira vez que eu tinha contato com negros da “velha mentalidade”, que odiavam brancos. Será que se poderia culpá-los? Nesses momentos, ficava claro o trabalho de pacificação que Mandela conseguiu fazer na passagem do poder. Ouvi, durante quase quinze dias no país, que o ex-presidente havia “poupado muito derramamento de sangue”. De fato, parecia ser uma verdade absoluta. Após o incidente seguimos a visita, sempre sob a promessa de estar protegido pela presença de Thuso. 

 

Finamente paramos no sempre melhor lugar de uma cidade: o mercado. O mercado central de Soweto. “Quer conhecer?”, fui perguntado, ao que respondi do mesmo modo de antes, mas com uma ênfase maior, visto o encontro com o motorista raivoso, “Você está vendo minha cor??”. Meu companheiro riu e disse que sim. “Acho que você está um pouco daltônico”, afirmei, ainda tentando colocar senso em seus pensamentos. “Fique tranquilo, você está comigo”. Descemos do carro e seguimos em direção ao mercado, com suas barracas de carne e frutas, vegetais, temperos... Tudo como qualquer outro lugar do mundo, não fossem os olhares constantes e desconfiados que eu recebia. Pintado de azul com uma melancia pendurada no pescoço não chamaria tanta atenção.

 

Como viajante estou acostumado a ser olhado e notado nos lugares mais distantes do mundo. No Myanmar, por exemplo, até foto os locais queriam tirar, provavelmente para registrar o momento em que estiveram juntos com um alienígena. Os olhares neste mercado, no entanto, eram diferentes. Olhares desconfiados, olhares de ódio. Aproximei-me de uma barraca de frutas e uma senhora desviou o olhar, entrou em sua barraca e recusou-se a conversar conosco. Em outra, de temperos, fomos quase enxotados, com protestos visíveis do vendedor que falava alto alguns impropérios que me companheiro se recusou a traduzir.

 

 

 

Houve, no entanto, pessoas muito receptivas – como não poderia deixar de ser. Em algumas barracas, simpáticas senhoras sorridentes queriam me fazer provar suas mercadorias a todo o custo. Brincavam com minha magreza e palidez, rindo muito. Há pessoas, entre brancos e negros, incapazes de passar por cima da visível cor de nossa pele. Há pessoas, entre brancos e negros, incapazes de se deixar impressionar pelo simples detalhe do tom da pele.

 

Na saída, observei alguns homens que conversavam animadamente à volta de um barril adaptado para servir de churrasqueira. Na chama, pedaços pequenos de carne. Ao lado do barril um balde com uma substância branca pastosa. Os homens enfiavam suas mãos no balde, pegavam um pouco daquela pasta, amassavam-na na mão, e depois levavam o bolo branco pastoso à chapa, para pegar a carne que ali assava. 

O que é aquilo? “É uma massa de amido, que serve como e fosse pão para pegar as carnes. Ali na chapa assam miúdos e pedaços de carne”. Fiquei com água na boca e deixei escapar: “Eu adoraria poder provar...”. “Jura? Mas é claro! Vamos!” e Thuso saiu em direção aos homens, ainda sob protestos meus que tentava, sem sucesso, lembrar-lhe, novamente, da minha cor. 

 

Quando nos aproximamos, senti a já comum sensação naquela viagem, de estar entrando em um bar de filme de faroeste. Aqueles cinco homens pararam de conversar, enrijeceram os músculos, fecharam os punhos, e com seus rostos nervosos fizeram menção de avançar em nossa direção. Meu companheiro começou a falar-lhes em alguma língua (ele mesmo falava inglês, sotho, zulu e “arranhava” xhosa) e dizer-lhes que eu era brasileiro. Pude identificar a palavra “Brasil” sendo dita algumas vezes, e as fisionomias dos homens começaram a arrefecer. Em inglês eu lhes disse oi, me apresentei, falei que era do Brasil e trocamos algumas figurinhas sobre futebol. Brasil e futebol costumam ser salvadores em situações difíceis pelo mundo. Ser brasileiro é uma benção em um mundo que parece se nutrir de inimizades e conflitos; em um mundo dominado por políticos dispostos a sacrificar a população em nome dos próprios interesses; em um mundo dominado por preconceitos e conflitos étnicos, raciais, religiosos. Ser brasileiro costuma garantir tranquilidade, sorrisos, amizades e diversões. Espero que continue assim.

 

Após risadas e troca de palavras como “Ronaldo” e “Rivaldo”, pude então colocar a mão dentro daquele balde cheio da pasta de amido, imitando o gesto daqueles homens, para pegar um pouco da massa. Aprendi como modelar a massa na mão para transformá-la em uma “panqueca”, o que possibilitava que servisse de pegador para um pequeno pedaço de carne que esturricava na chapa do barril. Todos riram com minha admiração do quão bom era aquilo. “Gostou mesmo?” Disse um deles, em um inglês com forte sotaque. “Sim! Uma delicia! Muito obrigado”, todos riram ainda mais. Agradeci-os em zulu, conforme fui informado que era a língua que falavam, e saímos. Agradeci muito a Thuso pela experiência. “Não há de que. Obrigado por se interessar tanto por nossa história”. E foi assim que deixamos o Soweto e voltamos para o hotel, para aguardar ainda uma hora até que eu precisasse ir ao aeroporto, para minha partida definitiva da África. Deixei aquele país esperando poder retornar o mais rápido possível para aquele continente apaixonante.

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