Vietnã: se correu, eles comem... - A Vila das cobras

Minha viagem ao Vietnã estava, desde o início, pautada em uma expectativa nutrida desde a infância: provar a famosa refeição de cobra. Famosa, obviamente, para mim, que quando tinha entre 8 e 10 anos, assisti a uma reportagem no Globo Rural, onde o repórter visitava um então fechado e quase turisticamente inacessível Vietnã. Fugindo do toque de recolher da polícia e pulando muros para se esconder, a aventura do brasileiro finalmente culminou nesta inusitada refeição. Lembro-me da cena mais marcante: o coração da cobra, ainda pulsante, servido solitário em um prato branco, esperando para ser engolido, acompanhado de uma dose de uma bebida que o encaminharia ao estômago. Do alto de meus 10 anos, sem muita perspectiva de mundo, o que pensei naquele momento, enquanto ficava com água na boca, é uma lembrança nítida: “Vietnã... eu nunca poderei ir lá e provar essa maravilha”. Vinte anos depois, lá estava eu, com olhar de criança, ainda dentro do Boeing da VietnamAir, rumo à Hanói, capital do país. Provaria, finalmente, a refeição de cobra.

 

Acordei cedo, ansioso pelo objetivo máximo daquela viagem, no dia previsto para o banquete de almoço. Até aquele dia, em minha volta pelo sudeste asiático, que já durava quase um mês, havia provado mais comidas estranhas e animais asquerosos do que eu sonhava que alguma vez pudesse fazer (o que incluía grilos, tarântulas, baratas-d’água, cachorro, entre outros), mas a cobra ainda permanecia como a grande atração, o foco da viagem, o elo entre minha infância e todas as aquelas bizarras experiências gastronômicas. 

 

Antes de ir, ao pesquisar onde comer, apenas um destino surgia hegemônico: Le Mat. A própria vila das cobras. Inicialmente acreditei tratar-se de um lugar com um restaurante, no entanto, ao chegar a Hanói, tive uma agradável surpresa: havia alguns restaurantes na área, todos dedicados a esta iguaria, mais ou menos próximos, localizados nesta vizinhança chamada Le Mat, em um bairro afastado do centro. A vila das cobras, onde não havia apenas um restaurante, me daria o luxo de escolher como realizar meu sonho de infância. 

 

Ao chegar ao local, basicamente um bairro que ficava a 40 minutos de taxi do centro, minha primeira sensação foi de que havia algo errado. Ruas de terra e casas residenciais. Não havia ninguém caminhando pelas calçadas e apesar de ser “hora do almoço”, por volta de duas da tarde, não havia nem cheiro de comida no ar. Como o taxista havia me deixado em um lugar que considerava ser o lugar correto, precisei caminhar alguns minutos até achar o primeiro “restaurante”: um espaço aberto, claro, azulejado, que mais lembrava um açougue. Bingo! Estava no lugar certo. Agora era só explorar um pouco e escolher o lugar ideal.

 

Decidi por um restaurante com cara mais ou menos receptiva, o Nguyen Van Duc, decoração entre o chinês cafona e o mafioso pretensioso, coisa que talvez não fosse sem razão. O estilo “vermelho com dourado” típico de tradicionais restaurantes chineses no Brasil era onipresente no lugar, adornado com peças de madeira escura esculpida, normalmente servindo de moldura para cadeiras e portas, que também contavam com colunas coloridas no lugar dos batentes. Os amplos salões assim decorados estavam vazios, o que ressaltava ainda mais a estranha decoração e o ambiente contrastante com a vizinhança de ruas de terra batida. A exceção do deserto de clientes era uma mesa de cinco homens cinematograficamente vestidos: ternos impecáveis, chapéu de feltro e sapatos de couro brilhantes. Olhares desconfiados completavam o visual. Mafiosos? Nunca saberei. Mas a ideia de sentar em uma mesa ao lado de mafiosos vietnamitas em um restaurante cujo prato principal era cobra, localizado em uma rua de terra em um bairro afastado de Hanói, é boa demais para ser abandonada. O sangue da cobra, que me foi servido em um copo de vodka para ser tomado em “shot”, apenas coroava a coisa toda: se não eram mafiosos, seriam quando eu contasse a história para os amigos.

 

E assim começou a festa: com sangue. Não apenas com sangue, mas com aquele coração pulsante no prato, acompanhado do “shot” de sangue. O garçom me explicou que eu deveria usar o sangue para engolir o coração. E assim eu fiz. Começou bem. Junto com o sangue foi servido outra dose, essa menos palatável e menos cheirosa. Era bile com veneno e vodka. Isso mesmo. Aquele tipo de coisa que qualquer manual do bom viajante diria para ser evitada. Como eu não estava ali para brincar de passar oportunidades únicas na vida, provei. Posso dizer que foi o único erro do dia. Meu rosto deve ter se contorcido de modo único, pois as gargalhadas dos garçons eram evidentes. 

 

 

 

 

 

Finalizado o ritual de iniciação, começou o real banquete. Pratos e mais pratos, em um total de treze, todos tendo como ingrediente principal uma mesma cobra, que era escolhida ainda viva na entrada do restaurante. Paguei o equivalente a 50 dólares, uma fortuna perto das refeições de 1 dólar que eu estava acostumado a comer no país. Mas por este valor a víbora era morta e nada dela se perdia – nem mesmo as vísceras. Entre os pratos servidos havia sopa de cobra, cobra salteada com cebola, rolinho primavera estilo vietnamita (no vapor e não frito, enrolado em uma folha de papel de arroz) com cobra desfiada, postas de cobra grelhadas, costelinha de cobra, ensopado de miúdos (rins, pulmão, vísceras em geral), ensopado de cobra com folhas medicinais, mingau de cobra e torresmo (basicamente a pele frita, crocante e de sabor marcante, estava delicioso). Até o arroz frito (uma especialidade vietnamita normalmente servido com um ovo mexido e legumes), era feito na gordura da cobra. De tudo que provei (sem considerar aquele drinque inicial), desaprovo apenas um item: os miúdos. Particularmente os rins. Pequenos, possuíam um gosto estranho, desagradável ao paladar e de textura que não melhorava a experiência. De resto, o banquete estava incrível, do coração cru ao arroz frito, com menção especial ao torresmo, absolutamente sensacional.

 

 

Sempre que como algo diferente, escuto a mesma pergunta: “tem gosto do quê?”. No caso da cobra, orgulhosamente costumo responder que “tem gosto de cobra”, pois, de fato, a carne possui um sabor único, que demanda uma dedicação de quem a come para compreendê-la, sendo assim, incomparável com outras carnes. Definitivamente, cobra é algo que vale a pena provar. Para mim, no entanto, foi mais do que isso. Foi a realização de um sonho de infância. E devo dizer, a expectativa foi superada pela realidade.   

 

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