Bangkok sem grilo?  Não: uma noite com muitos grilos!

** Texto originalmente publicado no site o viajante;

 

Terminava a noite de esbórnia em Nana Plaza. Neste famigerado epicentro das noites desregradas de Bangkok, pude apreciar primeiro um show strip-tease de Ladyboys (as famosas travestis tailandesas) e depois uma estranha casa noturna onde homens se aproximavam do palco para levar chicotadas num lugar apropriadamente chamado “Spank”. Estava certo de que qualquer coisa poderia acontecer dali para frente.

 

Um tanto embriagado, na saída desta Meca de arruaceiros e despudorados, dos quais agora fazia orgulhosamente parte, me deparo com uma senhora e seu iluminado carrinho gastronômico de... insetos! Com a cerveja fazendo efeito, meus companheiros de viagem e eu ficamos ali parados, observando a cena e nos perguntando o quão real seria aquela visão. Uma miragem?

 

 O carrinho era pequeno, quadrado ao estilo carrinho de pipoca, com o vidro protetor em três lados e um aberto para dar acesso ao conteúdo. No local onde ficaria a panela e a pipoca amontoada havia ali um tabuleiro com seis divisórias, onde ficam amontoados os insetos, cada um no seu espaço - lembrava-me dos tabuleiros de cocada que senhoras idosas levavam pelas ruas de Santos, cidade onde passei minha infância. Naqueles tabuleiros, cocada branca, cocada preta, pé de moleque, paçoca e outros doces eram cuidadosamente amontoados lado a lado, dispostos de modo a nos fazer enxergar com riqueza tudo que se oferecia. Assim também era o carrinho da velha senhora: nestes espaços, dispostos lado a lado, porém, não havia ali paçocas, cocadas e pés de moleque, mas grilos, besouros, gafanhotos, além de outros dois tipos de insetos não identificados e um amistoso camarão sete-barbas frito. 

 

Olhávamos incrédulos. Havia chegado a hora da verdade. Provaríamos os tão esperados insetos? A vontade se misturava ao medo, e esta mistura manifestava-se em algumas dúvidas: seria realmente uma iguaria local ou meramente uma armadilha para turistas? Morder uma daquelas coisinhas de patas, asas e antenas seria gostoso ou faria com que uma gosma verde explodisse e escorresse por entre meus lábios? – esta, aliás, a mais importante e mais angustiante de todas as dúvidas. 

 

Algumas pessoas se amontoavam ao redor do carrinho. Turistas? Locais? No meio delas percebo um homem que deveria ter quarenta e tantos anos. Um ocidental que curiosamente se comunicava com a senhora do carrinho em tailandês, algo que eu nunca havia presenciado e que não me parecia muito comum. Pedia dois tipos diferentes de insetos. Apesar de sua cara de poucos amigos (até hoje tenho certeza de que se tratava de um espião ou de alguém que havia cometido um grave crime em seu país e estava ali se escondendo havia alguns anos), me atrevo a abordá-lo e pergunto em inglês: “é bom?”. Sua resposta curta e seca não me traz nenhum esclarecimento: “sim”. Novamente, incentivado pela coragem alcoólica, insisto com ele apesar de sua feição: “Tenho vontade de provar, mas tenho certo receio”. Ele parece querer o fim daquela conversa, então decide dar mais informações para encerrar logo o contato – e agora posso supor, pelo sotaque, que se tratava de um britânico (um espião a serviço de Vossa Majestade?). “Você gosta de camarão? Então, é a mesma coisa: apenas proteína e queratina”, emendando, “evite o besouro, ele tem uma casca muito dura e pode dar uma má impressão. Sugiro que peça o grilo. Boa sorte” e se afasta. 

 

Apenas proteína e queratina. Esta frase mudou completamente minha relação com os insetos. Neste instante, tomo coragem e me dirijo à dona do carrinho, pedindo um saco de grilos fritos, pelo qual paguei o equivalente a um dólar. Feliz, me aproximo de meus companheiros de viagem atônitos com minha iniciativa, que traziam em seus rostos uma expressão difícil de descrever, entre o espanto e a alegria. Com a iguaria nas mãos dou início ao desafio: quem comeria primeiro? Após alguns segundos de hesitação, tomei para mim a tarefa de ser o primeiro a degustar. Levei o grilo à boca, não sem alguma apreensão, mas com um movimento rápido. Logo que tocou minha língua, foi triturado pelos dentes, mas sem ser imediatamente engolido: levei o tempo necessário para apreciá-lo. 

 

O sabor era quase indescritível: parecia um camarão (como previra meu misterioso interlocutor) criado na terra, uma mistura de grama com aquela carne delicada, com o leve amargor da casca.

 

 Ali, parado em frente à Nana Plaza, com um saquinho de grilos fritos na mão, percebi que não apenas tinha visto muitas coisas completamente fora do comum, como também havia comido algo inesperado, numa noite única e surpreendente que me abriu horizontes. Naquele instante, me dei conta de que a própria Ásia revelava-se para mim em seus sabores, aromas e experiências. A partir daquele momento, tudo seria possível – e tudo seria provado!

 

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