Do Myanmar para o Brasil: lições de viajante

Dia desses, saindo do metro a caminho de casa, encontrei duas pessoas. Claramente turistas, seguravam um mapa nas mãos enquanto moviam a cabeça por vezes buscando a placa da rua, outras vezes tentando encontrar a rua no desenho do mapa. Aquele olhar perdido, de quem está em uma esquina desconhecida tentando decifrar uma língua estrangeira me era familiar. Pude me ver naquela cena. Já havia estado no lugar deles em inúmeras ocasiões.

 

 

Dentre todas as vezes em que me perdi, angustiado tentando me achar, talvez a mais marcante, a mais memorável, tenha sido em Yangoon, Myanmar. Em uma época onde eu já usava o mapa do meu celular para me encontrar (ao contrário dos dois turistas que encontrei na saída do metro de São Paulo), o Myanmar me ofereceu um retorno a um passado que eu julgava distante: aquele tempo em que não havia internet. O jeito era mesmo fazer a coisa do modo antigo. Sem celular, o uso do mapa impresso era imprescindível. O que eu fazia era marcar o ponto no mapa aonde eu queria ir, “ligar” o meu GPS interno e seguir “me virando”, traduzindo as ruas desenhadas em ruas andadas e vice-versa. 

 

Fiz exatamente isso naquele dia. Precisava ir até uma agência de viagem onde havia comprado com antecedência a passagem de ônibus para Bagan. Na época (e acredito que ainda hoje seja assim) viajar pelo Myanmar trazia certas dificuldades logísticas, como a compra de passagens antecipadas. No site, o depósito era feito via banco estrangeiro e a passagem não podia ser emitida online. Havia a obrigatoriedade de ser retirada presencialmente. 

 

Lá fui eu atrás da agência. Rua certa. Número certo. Nada de agência. Um golpe?

 

Rodei um pouco por perto do local onde deveria ficar a agência. Havia ali um prédio que parecia estar abandonado, mas com a porta aberta. Será que agência fica lá em cima? Sem pensar muito nas consequências, entrei no prédio deserto e subi as escadas. Naquele momento tive duas certezas. A primeira era que aquele prédio seria locação ideal para que se filmasse um filme pós-apocalíptico. A segunda era que se uma horda de desordeiros pós-apocalípticos viesse me atacar, não haveria um herói para me salvar. O prédio caía aos pedaços e conforme eu subia, parecia ficar cada vez mais escuro, mais mofado e mais sinistro. Depois de ter subido dois andares, resolvi que era hora de parar e descer.

 

Tomado novamente pelo ar fresco da rua, refresquei meus pensamentos. Não havia agência. Ao lado da entrada do prédio, no entanto, uma folha de papel sulfite, presa por duas fitas adesivas, balançava com o vento. Lembrou-me da época de faculdade, quando alguma aula mudava de lugar em cima da hora e algum aluno arrancava uma folha do próprio caderno para escrever à caneta sobre a mudança, afixando a folha na porta da sala original, na tentativa de guiar os atrasados. Exatamente como na imagem de minha lembrança estudantil, esta era uma folha de sulfite, onde se lia a informação, escrita à caneta em um inglês estranho, de que a agência havia mudado de local. Havia um endereço. 

 

Eu estava com um mapa da cidade de Yangoon aberto na minha frente e havia um endereço a ser localizado. Faço aqui um desafio. Tente abrir o mapa da sua cidade e localizar um endereço desconhecido. Na hora percebi a verdade: tarefa impossível. 

 

Fiquei ali, então, parado em frente àquele papel, por vezes olhando para o mapa, por vezes olhando para a rua, com aquele ar de perdido. Neste momento um jovem se aproximou me dando oi em inglês. Se eu precisava de ajuda? Claro! Mostrei a ele o endereço que estava na folha de papel pendurada na parede e lhe disse que precisava ir até aquela agência. “Não é longe. Levo você lá.” Oi? Como assim, me leva? Pode me apontar aqui no mapa e estará tudo bem. “Sem problema. Te levo. Não tenho muito o que fazer, estou esperando meu pai, e ele ainda demora uma meia hora. Levo você lá”. 

 

Esse é o momento em que você, turista do Brasil, pondera: bem, como não tenho opção, pelo menos tentarei ficar alerta para saber com antecedência se ele está me levando para algum lugar do qual nunca mais sairei. Mas confiar nas pessoas é regra básica para se aventurar pelo mundo. Sendo assim, resolvo que, sendo minha única opção, devo seguir o jovem. No caminho vou conversando com ele sobre o país, sobre o fato de que ele fala um excelente inglês acima da média do que eu havia encontrado até então (e do que eu viria a encontrar, afinal, nem nos hotéis em que fiquei as pessoas falavam inglês), e sobre a disposição em me ajudar.

 

O jovem era muito extrovertido. Falava sem problemas da política do país e da abertura ao mundo exterior que estava acontecendo nos últimos tempos. Para ele, jovem, ansioso por conhecer culturas, isso era muito bom. Ele sabia que muitas pessoas estavam começando a ir para lá, cada vez mais turistas, e ele queria garantir a todas essas pessoas uma ótima experiência. “Meu pai sempre diz: filho, os estrangeiros não conhecem nossa língua, não sabem se virar. Se vir alguém de fora com problemas, ajude”, foi por isso, pelo ensinamento do pai, que ele resolveu vir falar comigo. Agradeci imensamente. Chegamos à agência. O jovem parecia feliz por ter ajudado um estranho, e se ofereceu para me levar a uma casa de chás, assim que eu terminasse de resolver meus problemas.

 

Esta não seria a última vez que alguém me ajudaria naquela cidade. Um dia depois desse acontecido, prestes a ir para a rodoviária (leia-se um descampado sem asfalto, onde alguns ônibus encostavam e onde você poderia beber uma cerveja enquanto aguardava) descobri no meu hotel que não havia como pedir um taxi. Taxis se tomam na rua. Com a mochila nas costas, parto para o meio da avenida, tentando sinalizar para que algum taxi parasse. Nada feito. Minha cara de desespero deve ter sido evidente e não demorou para que uma jovem, com um inglês melhor do que o do rapaz que eu havia conhecido na véspera, parasse para me ajudar. O que eu preciso? Um taxi. Para onde? “Para esta rodoviária aqui”, mostrando no mapa. Ela então começa a parar os taxis e a conversar com eles. Dispensa o primeiro. Dispensa o segundo. Após o terceiro eu a interpelo. O que estava havendo? 

 

“Eles querem cobrar muito caro. Cobram 10 mil. Mas para lá, é no máximo 6 mil”, disse ela. Explico, não sem um grau de constrangimento, que essa era a vida de turista. Para ela, local, era um preço, para mim, o dobro. Ao mesmo tempo, reflito sobre a diferença deste dobro para mim e para aquele taxista. A cotação do Kyat era de 1 dólar para 1.500. A diferença desses 4 mil significava pouco mais de 2 dólares. Qual o problema se essas pessoas pudessem ganhar um troquinho a mais, com a chegada de estrangeiros, muito mais ricos do que eles?

 

Peço a ela que aceite o próximo por 10 mil, afinal, eu já estava ficando atrasado, e pelo que eu percebia do trânsito, seria um caminho demorado. Ela, aparentemente também constrangia por eu ser obrigado a pagar mais caro, pediu desculpas por as coisas serem assim e aceitou chamar o táxi por aquele valor.

 

Por vezes, quando somos estrangeiros em um lugar (e não precisa ser em um país diferente, basta ser um paulista no Rio de Janeiro, por exemplo), acabamos enfrentando esse tipo de situação: um taxista que cobra a corrida em dobro ou um restaurante com cardápio em inglês, três vezes mais caro do que o cardápio local. No geral isso me chateia. No Myanmar, ao contrário, eu compreendia. A diferença do valor, para mim, era insignificante. Para os locais, no entanto, poderia ser a diferença entre um dia com comida na mesa e um dia sem. 

 

Além disso, a lembrança que eu levaria do país não era de ter sido trapaceado por taxistas. Isso teria sido um acontecimento pontual. A lembrança que levei daquele país era de um povo que ia muito além da simpatia: um povo que se esforçava para te ajudar, para te tratar bem. No fim, trouxe comigo na bagagem uma lição valiosa, que foi ensinada por um garoto simpático. Devemos nos esforçar para ajudar alguém que está visitando nossa terra, tratando-os com o mesmo respeito e carinho com que tratamos os convidados em nossa casa.

 

Foi por isso que parei para ajudar as duas pessoas que estavam na saída do metrô. Conversei com elas. Vinham da Alemanha. Precisavam achar um hostel que ficava ali perto. Olhei o mapa e as direções. Encontrei o local onde queriam ir e me ofereci para acompanhá-las, mas não foi preciso. O local ficava a duas quadras dali e elas entenderam bem o caminho, compreendendo onde haviam errado na sua tentativa anterior de se localizar. Espero que tenham tido uma ótima estada por aqui. 

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