Do simples ao complexo:

Estava sentado em um restaurante simples, tomando uma cerveja enquanto esperava meu pedido. Já era tarde e entre um gole e outro observava os outros clientes do local. Sem aviso, um senhor que caminhava cambaleante, visivelmente embriagado, esbarrou na mesa de dois jovens, derramando a bebida de um deles. O senhor se dirigia apressado ao banheiro, e lá entrou. Os jovens indignados se puseram a aguardar o retorno daquele homem, enquanto narravam o ocorrido para a garçonete, em busca de um copo cheio. Fiquei aguardando, confesso envergonhado, um tanto ansioso para saber qual o tamanho da confusão que se sucederia. Ao sair do banheiro, o bêbado foi confrontado pelos rapazes que o acusavam do desastre com a bebida, que além de tudo os deixara molhados. “O senhor fez isso e saiu andando. Nem pediu desculpas!”, dizia indignado um deles. “Perdão, perdão. Eu não vi”. Seria nesse momento que o jovem partiria para a agressão? “Agora você pede desculpas... deveria ter pedido desculpas na hora que esbarrou na mesa!” Não, não. Seria agora... “Me perdoe, eu não vi”. Havia chegado o momento? Agora?... “Tudo bem. Preste mais atenção”, disse o jovem, se sentando. Oi? Essa foi a grande confusão, a emocionante história que presenciei em uma noite fria em Montreal, entre um bêbado e dois jovens. Definitivamente o Canadá é um lugar encantador, mas chato para quem busca emoção e conflito.  

 

 

Pouco depois da frustrante cena chegou meu prato. Poutine, era o nome. Tradicional. Típico. Poutine tem sua origem na parte francesa do Canadá, Quebec, onde estávamos, mas acabou se tornando sinônimo do país inteiro. Trata-se de um prato feito com o que há de melhor nessa vida: batata frita, coberta com gravy (molho de carne) a base de gordura de pato, e um queijo semelhante ao nosso coalho. Pronto. Só isso. Na verdade, esse é o preparo clássico. A partir disso pode-se colocar outras tantas coberturas imagináveis (naquele momento, por exemplo, eu comia uma poutine com pato desfiado). 

 

 

 

Naquela noite eu havia escolhido este pequeno restaurante que apesar de simples estava localizado no chique bairro Le Plateau Mont Royal, conhecido apenas como Plateau, herdeiro de mansões dos colonizadores franceses e que até hoje recebe muitos imigrantes vindos daquele país. Curiosamente, aliás, fiquei hospedado na casa de um francês, que chegou a me dizer entre zombeteiro e envergonhado “eu sei, eu sou um clichê: um francês morando no Plateau. Mas juro que acabei de me mudar”. Rapaz simpático, com quem pude beber uma cerveja artesanal produzida há uma quadra da casa dele. O bairro é daqueles espaços urbanos que são muito bem estruturados para seus moradores. Por outro lado, assim é quase a totalidade da cidade, que conta com um eficiente transporte, muitas opções de entretenimento, uma beleza agradável e até um grande bosque (não um parque, como em Londres, São Paulo e Nova York, mas um bosque!) no meio da cidade, para onde se pode fugir para uma boa caminhada a qualquer hora.

 

Montreal é uma daquelas cidades que roubam nossos corações. Uma das poucas que visitei e na qual me senti tão bem que pude me imaginar morando por lá (as outras, a título de curiosidade, são: Ho Chi Min, Estocolmo, Nova York e Londres, onde já morei). Cada uma dessas cidades me encantou e mereceu meu amor por diversas razões. Montreal, além de ser canadense – gentil, atenciosa, educada – abriga maravilhas culinárias das mais diversas. Essas qualidades são, sem sombra de dúvidas, apaixonantes!

Please reload

Posts Recentes
Onde estamos?
Posts Recentes

January 31, 2019

January 17, 2019

Please reload

Procurar por tags
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now