Há algo de podre no Reino da Finlândia

Pouco depois de descer do navio – um cruzeiro da Royal Caribbean que me levou por sete dias a circular pelo mar báltico, – cheguei ao centro de Helsinki. Ao longo da minha estadia de um dia na cidade pude descobrir com prazer um local completamente único, uma capital nacional com tamanho de vila: a menor da Europa. 

 

Antes de explorar a cidade e descobrir suas ruas, me dirigi ao mercado central, sempre minha atração favorita em qualquer lugar. Entre muitos quitutes, encontrei algo que apenas em sonho imaginei poder experimentar. 

 

Em uma das lojas do mercado, especializada em frutos do mar, consegui me deter em frente à sua vitrine cheia de produtos incríveis à mostra. Em um canto da vitrine, ao lado de uma variedade de sardinhas escabeche, havia uma toalha que cobria parte de seus produtos. Parado, enquanto observava aquela maravilha de vitrine, fui recebido por uma sorridente senhora que  me fez experimentar algumas das delícias que servia. Perguntei então, o que havia sobre o pano. “Ah, isso aqui é para não deixar certas latas à vista”, retirando de baixo da toalha uma lata que parecia amassada. Ao olhar mais atento, a lata não estava amassada, ao contrário, estava visivelmente estufada. “Surströmming”, disse ela. 

 

Meus olhos brilharam. Surströmming, também conhecido como “peixe podre”. O que se faz é: colocam-se alguns arenques inteiros dentro de uma lata e completa-se com salmoura. Deixa-se que o peixe apodreça. Conforme ele apodrece produz gases. Quanto mais podre, mais gás é produzido; quanto mais gás é produzido, maior a pressão na lata, que acaba estufada. 

 

Posso comprar? Quanto custa? Apenas 17 euros? Claro! 

 

“Mas tome cuidado”, disse a vendedora, “Não abra essa lata no seu quarto de hotel! Procure um espaço aberto, uma praça, longe das pessoas”. A recomendação cuidava de um único fator: o cheiro! Eu já havia encarado comidas fedorentas antes, como o Durião em Singapura (leia aqui), e sei como as pessoas locais são sensíveis a esses cheiros. Melhor não brincar com cheiro de peixe podre, certo?

 

Saí do mercado com a lata em uma sacola, em busca de uma praça aberta com poucas pessoas, quando fui interpelado por minha namorada que me acompanhava: “e o abridor?”. Partimos para uma espécie de feira ao ar livre, na frente do mercado central, para tentar achar um abridor. 

 

 

Entre frutas silvestres e souvenirs, finalmente conseguimos um abridor (na verdade um instrumento que parecia um canivete suíço em formato de cartão de crédito, que possuía, entre outras funções, um abridor de latas). Resolvida esta parte, seguimos andando pela cidade, conhecendo igrejas antigas, lojas de design famosas, e o prédio do parlamento – sempre em busca de uma praça isolada. 

 

Após algum tempo andando, finalmente achamos o lugar ideal. Uma grande praça aberta, chamada Kampintori, que possuía apenas um carrinho de comida em uma de suas extremidades. Sentamos no ponto oposto ao carrinho. Havia ali alguns bancos de concreto onde apoiamos nossas coisas. Precisávamos registrar este momento. Minha namorada se encarregou da máquina fotografica, ligada na função filmadora, apontada para mim, enquanto eu me esforçava para fazer o primeiro furo naquela coisa estufada cheia de gases podres. 

 

 Estufada... cheia de gases... podres. Por mais óbvio que pareça, eu não tinha me dado conta disso.

 

Assim que consegui perfurar a lata com o abridor, um jato fino e potente de líquido viscoso e fétido foi liberado contra meu corpo, em meu rosto, por toda minha barba. No vídeo abaixo é possível ver o jato saindo da lata. Juro! No vídeo não é possível ver o cheiro, mas é possível ouvir minha agonia, abraçado por aquela nuvem apocalíptica. O cheiro era insuportável! Fui imediatamente sufocado, não pelo jato de líquido viscoso, mas pelo cheiro que imediatamente impregnou minhas roupas e minha barba. Minha barba! 

 

 

 Agora eu estava em uma situação bizarra: havia feito – apenas! – um furo na lata e já estava coberto com o cheiro podre de mil peixes do inferno regurgitados pelo próprio satanás. No entanto, precisava continuar. O asco era inevitável. O cheiro era inescapável. Finalmente abri toda a lata, sob risos cruéis da minha namorada. E em fim revelou-se o conteúdo total. Prontos para a segunda parte: comer o peixe. A visão não era melhor que o odor: Eram peixes inteiros, somente sem a cabeça, oleosos, socados dentro da lata, revestidos por uma salmoura viscosa. 

 

Claro que o cheiro intenso estava cada vez mais insuportável, mas você percebe que está fazendo “a coisa certa” quando os locais riem de você. Nossas caras e gestos de repulsa chamaram a atenção de uma finlandesa que passava por ali. Vendo o que fazíamos, a mulher riu abertamente, olhando-nos com um misto de pena e orgulho, como se dissesse “sei pelo que vocês estão passando. Parabéns pela iniciativa”, ou pelo menos foi isso que eu quis entender.

 

Eu queria poder dizer que a mordida naquele peixinho fez todo o asco desaparecer. Juro que queria dizer que morder o peixe fez com que a jornada de sacrifícios de nossos heróis tenham compensado todos os dissabores vividos. Infelizmente, não poderei dizer tal coisa. 

 

Não tanto pelo gosto, mas pela textura, eu jamais poderei dizer que morder o peixe tenha compensado algo. Afinal, trata-se de um peixe que passou tempos apodrecendo em salmoura. Ele se tornou uma semi-gosma pastosa, sustentada apenas pela pele inviolável do peixe. Você olha o peixe e ele parece muito bem, parece comestível. Você o morde, e aquele bicho se desfaz, a gosma entra em sua boca, como se estivesse mordendo uma jaca podre... Jaca podre. Essa é a textura mais próxima que eu poderia chegar em minha descrição. 

 

Bem, passada a textura, podemos ir para o gosto. Este realmente não era tão mal. Era muito salgado. Muito mesmo. Incrivelmente, o peixe não tinha o cheiro do gosto. Era gostoso, até. Acredito que com um pão, cebola, mostarda, teria ficado incrível. Infelizmente tínhamos ali apenas o peixe. Dei mais algumas dentadas (minha namorada, ficou só na primeira), e aproveitei para provar as ovas podres de arenque: estas sim, uma delícia! 

 

Abrimos a lata, liberamos os aromas do inferno, comemos o peixe. Agora precisávamos lidar com um novo problema: me lavar. Eu juro, até hoje, eu juro, que eu andava pela rua e as pessoas me olhavam e saíam de perto. Entrei em três bares e um McDonalds. Direto ao banheiro: usava muito sabão, lavava a barba e a jaqueta. Saía do banheiro para ver o rosto decepcionado da namorada balançando a cabeça em negação. Seguíamos para o próximo banheiro. 

 

 Uma lata de surströmming, algumas mordidas em um peixe podre, três bares e um McDonalds depois, e eu preciso terminar esse texto com uma grande má notícia: precisei raspar a barba. 

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