Jantar Viking

Andando pelas ruas de Bangkok, você se depara, na parte mais turística da cidade (Khaosan Road), com uma senhora vendendo espetos de escorpião. Em São Paulo, saindo do metrô Brigadeiro, está lá um rapaz vendendo milho verde. Em Amsterdã, no meio do distrito da luz vermelha, uma “coffee shopp” devidamente decorada com todas as referências possíveis a Bob Marley e a Jamaica. Em Portugal, um carrinho de castanhas torradas na Praça do Rossio. Como saber o que é uma atração turística e o que é tradição local? Como saber o que está ali para conquistar os turistas incautos, e o que faz parte da cultura, do dia a dia do povo?

 

A essas perguntas, eu acrescento uma: faz diferença? 

 

Como viajante sempre busco viver o que há de mais autêntico, seguindo meu lema “comer onde os locais comem, usar o banheiro que os locais usam”. Há, no entanto, eventos dos quais não se pode fugir, a não ser por pura vontade de se apresentar como “do contra”. Na busca por provar diversas experiências gastronômicas, costumo seguir este mesmo raciocínio. Esse raciocínio vale também para lugares e experiências um tanto “disneylândia”, como é o caso de um restaurante viking que experimentei em Estocolmo. Localizado em uma pequena rua na ilha central de Gamla Stan, o local já é atrativo pelo entorno antigo, ruas de pedras, construções antigas, um clima de retorno ao passado vai aos poucos envolvendo quem caminha por suas imediações, buscando alcançar o restaurante. Faz parte do cotidiano sueco comer e se comportar como vking? Claro que não! Mas e daí? A experiência é divertida e a comida é boa! (Ah, e a sueca que nos hospedou disse que já havia ido lá com os amigos, sim!)

 

 

O Aifur, escrito no alfabeto rúnico (antigo alfabeto usado pelos vikings), já apresenta na entrada flâmulas decoradas com motivos vikings e uma placa de madeira entalhada com um barco viking, com suas clássicas cabeças de dragão nas duas pontas. Para se entrar no restaurante é preciso cruzar esta entrada e descer uma suave escada que leva a um salão muito bem decorado com escudos de batalha, machados, espadas, elmos e pelegos. A decoração se completa com móveis, o que inclui mesas e cadeiras, de madeira rústica, pinturas nas paredes e os garçons vestindo roupas tradicionais. Logo na entrada somos recebidos por uma mulher que confere a reserva e depois sopra uma espécie de berrante, que faz todo o restaurante parar, enquanto anuncia a chegada dos nobres cavaleiros vindos, no caso, do Brasil, ao que todos gritam nos saudando. A exposição sem aviso prévio faz enrubescer o mais extrovertido dos humanos, mas a vergonha logo passa quando os comensais já instalados lhe dirigem sorrisos e cumprimentos, comportando-se como uma grande família, um verdadeiro clã viking. Tudo muito lúdico e turístico? Sim. Mas muito divertido.

 

Sentamos em uma mesa longa, comprida, ao estilo nórdico (aparentemente mesas comunitárias fazem parte da tradição escandinava, como também é possível conferir no restaurante Escandinavo, em São Paulo). Sentamos ao lado de um grupo de franceses que estavam ali visitando a filha/irmã/prima que morava havia alguns meses em Estocolmo. Nessas horas sempre penso “como é divertido ser europeu. Em três horas de viagem posso passar um fim de semana em Estocolmo”. Bebemos a isso. Escolhemos para o brinde o hidromel, um delicioso fermentado de mel, levemente adocicado, mas com final seco. Lembra vinho branco, mas muito mais saboroso. 

 

Para coroar a experiência, composta pela impecável decoração, pela bebedeira com os franceses, pelos garçons com tradicionais vestimentas vikings, e pelas deliciosas carnes de caça constantes no cardápio, provei uma entrada absolutamente singular: coração de rena curado e fatiado. Isso mesmo, você não leu errado: coração de rena curado. Coração costuma ser uma carne magra, por isso mesmo difícil de ser preparada. Curado, estava absolutamente sensacional, tenro, um pouco ferroso, tons de defumado. Teria um viking comido isso algum dia?

 

 

Deixamos felizes o restaurante, diria até cambaleando, depois de termos ingerido uma mistura de boas cervejas e bom hidromel. Eram onze horas da noite, o céu estava claro, ensolarado. Caminhamos mais um pouco pelas apertadas e velhas ruas do centro antigo de Estocolmo. Hordas de vikings furiosos talvez virassem a esquina e nos surpreendessem em instantes. Talvez. Mas seguimos para nossa casa, dentro de um moderno metrô, passando por lindas estações de metrô – verdadeiras obras de arte, que convidam o usuário a parar, a tocar a vida de modo menos rígido, mais contemplativo. 

 

 

 

Tudo naquela cidade era apaixonante. No entanto, não foi nesse dia que me apaixonei por Estocolmo, esse dia fui apenas um turista deslumbrado curtindo um “jantar viking”. O dia que me apaixonei por Estocolmo, foi o primeiro... 

 

 

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