Muita (fo)foca em Toronto – e um trocadilho péssimo que compromete todo o texto!

Na noite que fomos ao restaurante Kū-kŭm, em Toronto, ocorreu mais um momento de encontro com canadenses gentis. Não conseguíamos achar o ponto de ônibus que de acordo com o mapa do celular deveria ficar em frente a uma estação de metrô. Uma senhora que passava por ali resolveu ajudar. Perguntei a ela sobre o ponto, mas ela não sabia. Olhou em volta e nada viu. Sugeriu-me então que entrasse na estação e perguntasse lá para algum funcionário. No entanto, o que ela fez? Foi comigo até a estação para garantir que eu teria a informação que precisava. Não adiantaria dizer que seus esforços eram desnecessários. Um canadense querendo ajudar é como uma força da natureza. Era noite e a rua estava quase deserta. Ela devia estar cansada, voltando para casa, mas saiu de seu caminho, mesmo assim e sem pestanejar, somente para ajudar um estranho. Cada minuto no Canadá, e em Toronto, era um espanto.

 

Após resolvida a confusão e tendo finalmente conseguido pegar o ônibus, chegamos ao local para a estrela daquela noite: foca! Isso mesmo. Aos estômagos sensíveis, sugiro que pulem este texto. No entanto, o que realmente gostaria é que pudessem ler os próximos parágrafos, para refletirmos juntos sobre o lugar da foca na vida canadense. Não trago nenhum questionamento profundo, longe disso, mas apresento uma breve explanação do problema.

 

A questão da caça à foca é uma polêmica internacional que possui o Canadá como seu centro. De um lado, organizações de proteção animal e diversos organismos internacionais, que condenam a caça e a comercialização de qualquer produto derivado de foca. De outro, os inuits, os povos nativos do ártico norte-americano, os habitantes originários do Canadá, que possuem na caça de foca não apenas uma tradição, como também um meio importante de sobrevivência. A carne da foca – rica em gordura, ômega-3 e ferro – é fundamental para a boa alimentação e desenvolvimento deste povo que vive em temperaturas negativas e sob condições climáticas extremas.

 

Crueldade ou necessidade? Seja qual for o seu veredicto, o governo do Canadá segue garantindo a caça de focas desde que praticada pelos povos indígenas para sua subsistência. No entanto, a lei acaba por permitir, por exemplo, que um restaurante em Toronto, pertencente ao chef inuit Joseph Shawana, prepare e venda carne de foca como parte de seu cardápio.

 

Foi conhecendo toda esta polêmica, e buscando me aproximar e saber mais de uma cultura completamente desconhecida para mim, que resolvi visitar o Kū-kŭm (o nome, aliás, significa “avó”, em homenagem a avó do chef, com quem ele aprendeu a cozinhar). O pequeno restaurante era aconchegante e fomos muito bem atendidos desde o começo. Havia duas possibilidades no cardápio para se experimentar a carne de foca: um trio de entradas, composto por fatias do lombo, patê de carne, e um tartar; e um prato principal com a carne do lombo fatiada. Por indicação da simpática garçonete, decidimos pedir a entrada, que nos daria uma visão (uma degustação?) mais abrangente da carne, e como pratos principais fizemos opções “mais comuns”: a Gabi ficou com um ragu de alce, enquanto eu comi um peito de pato. 

 

(passe para o lado) 

 

 Para começar vou falar da aparência (essa é a parte em que você deve parar de ler, aliás): pense em um pote de nanquim. Esta é a cor da carne de foca! Sem exageros. A carne é preta. As fatiam de lombo vieram mal passadas, o que percebi fazer muito sentido: uma carne bem gordurosa, que me lembrou de um Wagyu, precisa ser apenas selada, para conservar os sabores delicados da gordura. Desmanchava na boca! O adocicado da gordura contrastava com o tostado da chapa. Uma delícia, com certeza! O tartar, por outro lado, dava a possibilidade de experimentar todo o sabor da carne de modo direto, sem a interferência do fogo que sempre acaba deixando aquele tempero a mais, meio tostado, meio defumado. Costumo descrever a carne de foca do seguinte modo: já cortou o dedo? Sabe quando você leva seu dedo à boca após o corte para estancar o sangue? Sabe aquele gosto ferroso de sangue? Bem, agora coloque um pouco de açúcar nele. A foca é quase isso. Ok, não é a melhor nem a mais apetitosa descrição do mundo, mas é o que eu consigo. Espero não ter enjoado ninguém, mas dou minha palavra de honra, sem a menor dúvida, que apesar dessa péssima descrição, esta é uma das carnes mais delicadas e ao mesmo tempo mais marcantes que já comi. Fiquei simplesmente apaixonado por carne de foca. 

 

Enquanto eu me apaixonava, a Gabi tentava lavar o gosto da língua dela com o ragu de alce. Segundo ela a carne “não tinha fim” e permanecia na boca como uma gosma pungente.  Confesso que fiquei feliz por ela ter detestado o animal: sobrou tudo pra mim.

 

 

 Deliciei-me tanto (e devo ter feito barulhos de prazer que envergonharam a Gabi) que o chef veio me oferecer, ao final da refeição, mais uma rodada de fatias de lombo, por conta da casa – desta vez, servidas com ovas de peixe voador por cima! Um ótimo encontro da educação canadense com a hospitalidade inuit. Não poderia pedir por mais nada. Mesmo assim, nos serviram como digestivo um calmante chá de pinheiro, vindo diretamente do gélido e selvagem norte. Saí do restaurante com um sorriso de criança no rosto.

 

 felizes pós foca

 

Essas experiências (falo tanto dos encontros com pessoas gentis e atenciosas quanto da possibilidade de ter provado uma tradicional refeição inuit) quase apequenaram os 553 metros de altura da CN Tower, ponto turístico referência da cidade. A torre, junto com o Real Museu de Ontario e a Casa Loma, é considerada uma das principais atrações turísticas da cidade. Subindo até seu deck de observação, por um vertiginoso elevador panorâmico, não posso deixar de contemplar aquela maravilhosa cidade. Vendo as luzes de Toronto, pensei nas alegrias que o lugar me proporcionou: Visitei um belo aquário, caminhei por ruas limpas e agradáveis, comi rosquinhas no Tim Horton´s, conheci um pouco mais de esporte no Hockey Hall of Fame, comi mais rosquinhas no Tim Horton´s, fiz um passeio até as Cataratas do Niágara, e comi rosquinhas no Tim Horton´s (sério, você precisa comer lá. É uma instituição canadense, há um em cada esquina. Peça a rosquinha de maple). Certamente eu voltarei a Toronto, mas não pelos museus ou por qualquer evento turístico. Voltarei pelo povo... E pela foca!

 

Ps.: Suba na torre. Veja a cidade de cima. Mas não jante. Prometa para mim que não jantará na torre. Pedido de amigo. 

 

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