Ser viajante: uma atitude.

O viajante é aquele ser que sempre prefere as rotas menos rodadas, os lugares menos explorados e as experiências mais únicas. Destaca-se do turista comum nas escolhas dos destinos, nas escolhas das acomodações, no planejamento da viagem... Até mesmo na escolha de seu meio de transporte, o viajante se destaca do turista comum: avião? Apenas quando estritamente necessário, caso contrário, os transportes ideais serão trem, ônibus e bicicleta – e eventualmente o lombo de uma mula em uma caravana de nômades.

 

Mas será mesmo que é o diferente, aquilo que está fora do costumeiro, que define o viajante? Será que é o destino pouco visitado, ou o hotel infestado de insetos, ou a viagem no ônibus onde locais transportam galinhas de estimação, que definem o (bom) viajante? Não se pode ser viajante em Paris? Perdem-se pontos quando se quer uma noite bem dormida em uma cama confortável? Comete-se uma heresia quando se recusa o trem em favor do avião? 

 

Acredito que ser viajante não se determine pela experiência que o mundo oferece, mas pela atitude frente a essa experiência. Ou seja, não se trata do que é externo a mim, objetivamente descrito – o destino exótico, por exemplo – mas do modo como vivo, o modo como estou neste destino. Costumo dizer que minha bússola viajante é norteada pela seguinte frase: coma onde os locais comem, use o banheiro que os locais usam. No entanto, normalmente omito uma reflexão, que apresento neste texto: Não basta comer a mesma comida e usar o mesmo banheiro dos locais, é preciso deixar-se contaminar com a experiência. Não importa onde eu esteja.

 

Contaminar-se com a experiência é uma tradução de uma atitude contemplativa, de permitir-se estar ali, naquele local, do modo possível, questionando-se, compreendendo a si e aos outros. Em outras palavras, estar com uma tribo berbere no meio do Saara em uma noite estrelada não significará nada se eu não puder perceber a beleza e a magnitude deste momento. Se eu não aprender sobre os costumes e sobre a história destas pessoas, se eu não me misturar a eles nas canções e no compartilhamento da comida, se eu não observar cada pedaço daquele lindo céu estrelado sobre minha cabeça. De modo inverso, posso estar em algum lugar tão turístico quanto Miami ou tão comum quanto a cidade onde moro e apreciar meus momentos, conhecer melhor o povo que ali habita, conversar com as pessoas, frequentar as praças e os bares locais etc.

 

Assim, não basta escolher o transporte mais alternativo para garantir que se estará sendo um “verdadeiro” viajante. Posso estar no trem sem olhar pela janela, ou no ônibus sem reparar em quem são meus companheiros de viagem. Ao mesmo tempo, não preciso estar num trem para conhecer pessoas interessantes, ou num ônibus local para ter uma história incrível para contar. Por vezes, aliás, o transporte mais óbvio e comumente rechaçado por viajantes, o avião, pode ser fonte de histórias e acontecimentos, se o viajante puder se deixar contaminar.

 

Andar de avião pode ser fonte de experiências? Sim. Podem ser histórias batidas de certo terror aéreo, como quando eu estava em um avião que “pousou de lado” na Cidade do Cabo por causa dos fortes ventos. Podem ser histórias de contato humano, como quando conheci um grupo de brasileiros voando pela Alitália: não apenas fizemos amizade como também conseguimos realizar duas partidas de truco, com direito a dupla de fora, até sermos ameaçados de prisão pelo chefe de cabine da empresa, pela arruaça que estávamos fazendo. Podem também ser histórias da própria experiência do trajeto  do voo: alguém aí já pousou em Siem Reap, no Camboja? O minúsculo aeroporto fica no meio da floresta e, conforme o avião se aproxima, tudo que se vê pela janela é: floresta! Árvores e mais árvores. O avião vai se aproximando e nada além de árvores! A impressão é de que o avião está fazendo um pouso de emergência no meio do nada. Como ter essa experiência pegando um ônibus?

 

De várias histórias que já vivi em aviões, a que mais gosto se passou nos Alpes suíços. Em uma decisão que, à época, julguei errada para um viajante, decidi fazer o percurso Stuttgart – Milão de avião, ao invés do trem, que me custaria um dia de viagem. O percurso do sul da Alemanha até o norte da Itália passaria pela suíça. De trem esse trajeto seria lindo! Pois bem, estava eu dentro do avião, pensando no que faria quando chegasse à capital da moda, quando ouço a campainha indicando uma mensagem do piloto. Em inglês, ele começa com o clássico “senhoras e senhores passageiros”. O que se seguiu foi emocionante, não só pela mensagem, mas pela entonação do piloto: “Estamos passando neste instante por cima dos Alpes. O dia está lindo, sem nenhuma nuvem e é possível apreciar a beleza desta vista. Por favor, parem o que estão fazendo e olhem pela janela. Isso é lindo. À sua direita, ao fundo, se vê O Mont Blanc, na França. Isso quase nunca é possível. Admirem este momento. Está muito lindo”. 

Nunca tinha ouvido um piloto falar daquela maneira. Olhei para fora e pude ver vários picos nevados, além de vários pequenos lagos entre esses picos. Por maior que fosse nossa altitude, a sensação era de que poderíamos tocá-los a qualquer tempo. De fato, uma visão linda. Permaneci encantado não apenas com vista, como também com as doces palavras do piloto que ecoavam em minha cabeça trazendo uma pergunta: Quantas vezes na vida deixamos passar uma experiência pela total impossibilidade (ou incapacidade) de apreciar aquilo que está diante de nós? 

 

Uma viagem de trem pelos Alpes é linda, não tenho dúvidas. Mas aquela viagem de avião valeu muito mais do que qualquer trem que eu pudesse pegar. Porém, isso só é verdade porque tive, naquele dia, um piloto de uma companhia área de baixo custo me abrindo os olhos para aquilo que estava disponível diante de mim o tempo todo. Pude contemplar e viver uma experiência marcante e significante em um avião, esse transporte tão menosprezado pelo “bom” viajante. 

 

Deste modo, insisto: não se trata da experiência que o mundo oferece. Ser viajante não se resume a escolher a rota menos rodada, os lugares menos explorados e as experiências únicas. Ser viajante é uma atitude, a atitude de deixar-se contaminar com a experiência, seja ela qual for, onde for e com quem for.

 

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