Singapura: capital internacional da comida

 Viajar para a Ásia é poder ter uma sensação de viagem no tempo: na ida, você sai no dia 25 de tarde e, 26h depois, chega no dia 27 de manhã. Na volta, você sai dia 29 à noite e, 26 horas depois, chega no dia 30 de manhã. Tudo fica muito confuso. Mas quando seu destino é Singapura, não há confusão que sua estrutura bem planejada não possa curar. 

 

A cidade-estado, composta de uma ilha maior e outras menores, tem mais do que 50 anos de idade e parece querer progredir 500 anos em 50. Organizada, segura, e com toda comodidade e infraestrutura digna de um país de primeiro-mundo, a cidade pode até enganar o viajante incauto, que esquece estar em uma terra governada por uma ditadura rígida, com leis rigorosas que incluem até altas multas para quem come no metrô ou masca chiclete na rua. Mesmo assim, é possível se sentir livre e seguro, e quase não se vê policiais nas ruas.

 

Singapura tem um dos mais interessantes planejamentos urbanos que já conheci. Cada estação de metrô dá acesso a um grande centro comercial, composto por um shopping center e por edifícios de escritórios, além de contar também com um complexo de apartamentos residenciais. O acesso entre esses aglomerados de prédios funciona pelo subterrâneo, sem a necessidade de passar pela rua. Vale dizer que todo esse percurso é 100% coberto pela constante e importante presença de ar-condicionado. Isso mesmo. Singapura tem aquele clima de calor úmido constante, típico de uma cidade que fica praticamente em cima da Linha do Equador, em uma região tropical (conhece Manaus?), e nada melhor do que uma rede de ar-condicionado que te refresca até mesmo dentro do elevador do seu prédio, não é?

 

Próximo a cada estação de metrô, além de prédios comerciais e residenciais e shopping centers, existe uma invenção de deixar qualquer amante da gastronomia de queixo caído: Hawker Center. Você vai pensar na praça de alimentação de um shopping, mas não é isso, ainda que se eu descrevesse seria exatamente nisso que você pensaria: no centro várias cadeiras e mesas, em volta várias “lojas” vendendo comida. Mas lembra, não é isso. As lojas eu chamaria de "barraquinhas". Cada “barraquinha” trabalha com uma especialidade, com no máximo dois ou três pratos. Quase não existe comida repetida e, no geral, o que se apresenta é um delicioso resumo da Ásia espalhado pelos boxes.  Arroz com pato e arroz com frango; Pad Thai; Laksa; Rolinhos vietnamitas e noodle vietnamita; caranguejo com chili e caranguejo com outro tipo de chilli; curry  de cabrito, curry verde e curry vermelho; etc. 

 

Ao longo dos dias que fiquei por lá, pude provar uma variedade de comidas até concluir que Singapura não deve nada a outras capitais internacionais gastronômicas como São Paulo ou Nova York. 

Há algo de interessante nessa grande variedade de comidas: O país com 50 anos de idade é uma mistura cultural de todo o sudeste asiático, o que se refle na gastronomia. Os pratos que ali se encontram podem ser facilmente apreciados nos países vizinhos, mas ali eles ganham um toque diferente, ganham um sotaque próprio, gritando, todos juntos: Singapura!

 

Pessoas de verdade fazendo comida de verdade. Singapura resume o que eu acredito em relação à simbiose entre de comida e cultura. Por lá, cultura não se trata de prédios antigos e museus marcantes. Cultura é poder comer um Laksa, típico prato malaio, feito por um malaio ou descendente de, com um toque um pouco mais pesado na pimenta, clara influência talvez do tailandês da barraca ao lado, que por sua vez prepara um noodle com frango, ingrediente que ele aprendeu a usar, talvez, com os chineses do outro lado do Hawker Center. 

 

Dentre todas as comidas que experimentei por estas maravilhas de praças de alimentação, minha favorita foi o Laksa. Trata-se de um caldo forte, espesso, condimentado, com noodle, mariscos, peixe, camarões, frango, e vegetais. Gengibre, leite de coco, açafrão e pimenta, temperam a experiência. Um prato que é um presente para o paladar.

 

 

No entanto, outras experiências se destacaram e merecem ser citadas aqui. Foi em Singapura que experimentei satai (pequenos espetos típicos japoneses, que são preparados por horas nas brasas de churrasqueiras) de pulmão, de rim e de fígado de carneiro – pelo menos de acordo com o vendedor, era carneiro. Outro prato interessante que também provei por lá foi um omelete de ostras: basicamente, omelete com ostras. Aconselho a colocar shoyo e pimenta para provar.

 

Em minha visita à ilha tive uma agradável surpresa, ao provar uma fruta que eu já dava como certo que não poderia provar na viagem. A fruta em questão é conhecida como “rei dos frutos”, o famoso Durião.

 

Quando cheguei à ilha, no final de dezembro, fui informado que a temporada de Durião já havia terminado, no fim de Novembro, e dificilmente eu encontraria algum ainda sendo vendido. Pois, como sorte é algo importante na vida, encontrei quase sem querer, em um mercado pequeno e movimentado uma barraquinha que vendia a iguaria. Por que eu cobiçava tanto essa fruta? Bem, ela possui uma característica que a destaca das demais – e que também faz a sua fama. Ela fede. 

 No início do texto mencionei as altas multas existentes em Singapura, o que incluía uma de 500 dólares para quem comesse no metrô. Bem, existem placas informando estas proibições e respectivas multas espalhadas pelas estações. Nessas placas aparecem os desenhos de um sanduíche e um copo, com um X sobre eles, e em baixo se lê “no eating or drinking. Fine 500 dolars” (não comer nem beber. Multa de quinhentos dólares). Ao lado uma placa igual, mas com desenho de um cigarro aceso cortado pelo mesmo X, “no smoking. Fine 1000 dolars” (não fumar. Multa de mil dólares). E uma terceira, onde se via o desenho de um Durião e se lia “no durian” (nenhum Durião). Assim, sem multa. Eu ficava sempre imaginando que o recado deveria ser entendido como “se você abrir esse negócio aqui, não tem multa que o isente da prisão perpétua”. A fruta fede.
 

 

Voltando ao mercado, minha felicidade era grande ao ver aquela barraca ali, vendendo os últimos frutos da temporada. Vinham devidamente embalados e com a recomendação de serem abertos em lugar arejado, no meio da rua, o que significava ali mesmo, na frente da barraca. Devo dizer que o cheiro não era assim tão assustador quanto me havia sido narrado, mas de fato não era agradável. No entanto, era possível enfrenta-lo com tranquilidade para provar sua doce carne, que, infelizmente, era impregnada pelo “gosto do cheiro”. 

 

Uma mordida, duas mordidas. E foi o bastante. O Durião é grande, tem uma aparência externa de jaca e internamente possui grandes gomos amarelados. Comprei um desses gomos em uma bandeja de isopor envolta em papel filme. A fruta é normalmente cara (ela é importada, como quase todo alimento em Singapura), e estava fora de época, então, acabei pagando por este gomo a bagatela de dez dólares. Sim, dez dólares por duas mordidas fedidas. Acontece. Nada que uma água de coco não possa resolver. Mas espere: eles colocam um adoçante na água de coco! Fica pior do que aquelas de caixinha que se compra por aqui em supermercado que possuem “1% de adoçante para padronizar o sabor”. 

 

Deixando de lado as más experiências, preciso entrar no rol de comidas típicas. Sim, além de contar com a melhor mistura de todo sudeste asiático, Singapura tem suas próprias comidas típicas. Começando pelo café da manhã. 

 

O café da manhã, mais do que uma “comida típica” é um “comportamento típico”: kaya toast (torrada kaya). Kaya é uma geléia de coco surpreendentemente saborosa. No café da manhã come-se assim: um ovo mole, aquele ovo de 4 minutos que se come de colher, é despejado em um pote onde você mesmo pode temperar com shoyo e pimenta e mexer bem. Ao lado, dois pães torrados recheados com a geleia de kaya, que é levemente adocicada. O que você faz? Pega a torrada e molha no ovo mole temperado com shoyo e pimenta. Parece nojento? Bem, é nojento. Mas é muito gostoso também. Então, eu recomendo!

 

 

Enfrentou o café da manhã singapuriano e agora quer um prato mais substancial? Acredito que o chilli crab seja sua opção. Trata-se de um caranguejo robusto, servido imerso em um molho grosso de tomate, levemente adocicado e bem apimentado. Servido junto com uma luva de plástico e deliciosos pãeszinhos. A luva se mostra logo extremamente importante: após um tempo dedicado ao bicho, eu não conseguia mais sentir meus lábios, dormentes por causa da pimenta – imagina como teria ficado minha mão. Cuidado extra: não coçar os olhos enquanto come!

 

 

 

Por fim, apesar de haver quase uma campanha do ministério do turismo para divulgar o chilli crab como prato nacional singapuriano, talvez o prato que mais represente o país seja o frango com o arroz. Dito assim parece até algo simples, mas não é qualquer frango com arroz. Trata-se de um filé de frango frito, com um molho agridoce, servido sobre uma cama de arroz. Os locais dizem ser a união de todo o sudeste asiático em um único prato, a quintessência da gastronomia asiática. Um prato que só seria possível neste país, por receber tantas culturas, tantas comidas. O melhor frango com arroz que já comi na vida, com o tempero mais interessante, que me permitiu entender todas as comidas que eu provaria no mês que se seguiria rodando pela região. A assinatura mais própria de Singapura. 

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