St. Petersburgo, urso, mel e caviar

Caminhar por São Petersburgo é certamente uma das mais encantadoras atividades que se pode realizar. Parecida com Paris, cercada por rios e canais ao melhor estilo veneziano, com um toque decadente russo, a cidade apresenta uma equilibrada mistura entre o longínquo passado czarista e o recente passado comunista. A antiga capital do império russo merece, certamente, muito mais do que os poucos dias que estive nela. O pouco tempo que tive foi, no entanto, incrível e inesquecível. 

 

 

Confesso que cheguei na cidade com dois objetivos: conhecer o maior museu do mundo, o Hermitage, e comer urso. A visita ao museu era quase inevitável, já que todos os caminhos levam a ele. Comer urso, por outro lado, demandava um pouco mais de empenho. Tal qual havia feito na Finlândia em relação à rena, pesquisei com antecedência onde encontrar aquela carne de caça na cidade, e obtive como referência o restaurante Lucky Shot. Dedicado à carne de caça, o restaurante era decorado com cabeças de animais como javali e alce, além de peles de ursos e chifres de variados tipos de cervos que adornavam suas paredes. No centro do restaurante uma grelha redonda. Tudo muito legal, mas interessante mesmo era o fato de que nenhum garçom falava inglês (apesar do nome em inglês e do cardápio bilíngue), o que nos obrigava a divertidas mímicas.

 

A carne de urso era o único item caro do cardápio, e enquanto paguei uma pequena fortuna de 25 dólares por dois pequenos pedaços da iguaria (que foram, trazidos crus à mesa antes de serem preparados para mostrar o quão frescos eram), a Gabi, minha namorada, se deliciou com um legítimo e barato prato de strogonoff – servido com batatas cozidas e não com batata palha – capaz de alimentar a nós dois.

 

 

O strogonoff estava uma delícia, bem temperado, lembrava o nosso, mas era menos leitoso. O urso também era muito bom (apesar de pouco). Não era uma carne dura, como eu imaginava, ao contrário, era macia. Tinha um gosto forte, marcante, um pouco defumada, e um pouco adocicada, mas havia algo nela de diferente, um gosto que não chegava a ser estranho, mas que não era similar a nada que eu já houvesse provado. O que me levou a conclusão óbvia, e estúpida, de que urso se parece com urso. Não é mesmo?  

 

 

 

 

Para acompanhar, o garçom trouxe por conta da casa uma rodada de vodcas: uma tábua de degustação com cinco doses, sendo uma com pimenta, outra com groselha, mais uma com mel, e outras duas que não conseguimos saber do que se tratava, pois o garçom não era campeão de Imagem e Ação. No fim, o urso foi bom, mas as risadas com o garçom russo foram excepcionais: Visto que passamos mais tempo tentando identificar cada ingrediente das vodcas do que realmente bebendo – e visto que a cada vez que bebíamos, arriscávamos mais palavras em russo...

 

 

No dia seguinte, sem muita ressaca, fomos até um mercado chamado Kuznechny, que havíamos visto em um dos meus programas favoritos: Comidas Exóticas, do sensacional Andrew Zimmern. Este programa, aliás, é inspirador de muitas de nossas aventuras, e recomendo veementemente que o assistam. Seguindo suas dicas, então, pegamos um metrô e lá fomos nós para este antigo mercado.

 

Não há melhor palavra para descrever certos locais russos como “decadente”. Nenhuma outra palavra descreveria melhor esse pequeno mercado. Nem mesmo os moradores locais para quem pedíamos informação sabiam da existência do mercado! Amplo, com suas paredes de mármore e pé direito tão alto que mais lembrava uma igreja, parecia revelar que um dia fora importante e bem frequentado, talvez por uma sociedade palaciana. Hoje, porém, seus vendedores possuíam a feição de quem aguarda sonolentamente por algum consumidor que tenha entrado ali por engano. 

 

Entre estandes de peixes, carnes e legumes (todos parecendo já contar com o mercado como moradia fixa), encontramos uma jóia perdida. Uma senhora idosa que vendia mel. Lembramos imediatamente de tê-la visto no programa do Andrew Zimmern, mas havíamos esquecido por completo que ela estava lá. Foi, assim, uma agradável surpresa dupla. Seu mel não era qualquer mel. Um delicioso mel silvestre, com uma consistência incrivelmente pastosa, que lembrava mais uma geleia real do que o mel em si. Possuía alguns tipos, cada um vindo de um tipo de flor que, por conta da barreira da língua, não pudemos descobrir quais eram. A simpática senhora falava russo e somente russo. Eu sabia dar oi, perguntar o nome e dizer o meu (resultado de seis meses de tentativa de aprender o idioma na adolescência), além de agradecer e dizer tchau. Não era muito, mas ao longo da viagem pude conferir ser suficiente para quebrar o gelo do contato local.

 

Permanecemos junto àquela senhora por muito tempo, experimentando ávidos cada um dos tipos de mel que ela fazia questão de nos servir. Ao final compramos um pote de um dos nossos tipos favoritos, um mel pastoso, de um amarelo claro quase branco, totalmente turvo. Segundo o que pude entender das mímicas, o mel perto dos polos, produzido em temperaturas mais baixas, torna-se mais pastoso e turvo do que o mel nos trópicos. Ou talvez ela só estivesse tentando me dizer que havia detestado meu corte de cabelo. Quem poderá saber? 

 

Claro que houve um momento de tensão: Quando dissemos que éramos brasileiros, a senhora fez uma cara feia, torceu o nariz, algo que eu nunca havia visto! Nunca em todos esses anos vi alguém torcer o nariz quando digo que sou brasileiro. Essa apresentação normalmente é seguida de sorrisos e nomes de jogadores de futebol. Talvez ela tenha entendido que éramos ucranianos... Ou chechenos, quem sabe? Nossos rostos assustados e gargalhadas, no entanto, ajudaram na briga diplomática – que foi ainda mais resolvida pelos sons de “hmmmmm” que fazíamos a cada colherada. No final, saímos do mercado felizes. Com o mel na mão, rumo ao desconhecido.

 

Uma pausa precisa ser feita: parte das nossas andanças pela cidade se dava via metrô. O metrô de São Petersburgo, segundo consta (visto que não conheço seu objeto de comparação), só perde em beleza no mundo para o metrô de Moscou. São estações absolutamente monumentais, que já se mostram diferentes de outras cidades por suas entradas, que nunca são uma pobre escadinha que desaparece no meio da calçada, mas sim uma maravilhosa entrada de um edifício, com pesadas portas de ferro, por vezes portas giratórias, com detalhes cromados ou em bronze, lembrando a entrada de um majestoso banco inglês do início do século vinte. Dentro, na plataforma, pisos de granito, grandiosas estátuas de mármore, gigantescos candelabros de bronze (muitos ainda com a foice e o martelo, símbolo da União Soviética, gravados). São obras dos tempos soviéticos, que glorificam o trabalhador e mostram a grandiosidade do comunismo, que apesar de não ter pão o suficiente para todo mundo, tinha a possibilidade de garantir tamanha beleza e ostentação para os cidadãos que moviam a nação. Hoje, vagar pelas estações de São Petersburgo conta como uma importante visita turística.

 

Saindo do mercado, rumamos para o centro e descemos em uma estação próxima ao Hermitage. Flanando pelas ruas, acabamos passando por uma galeria onde avistei uma loja dedicada ao cálice sagrado, a jóia da coroa da czarina, o néctar mais cobiçado por uns e mais detestado por outros: caviar. Caviar, vale lembrar, não é aquela ova de capelin que se serve em muitos restaurantes japoneses aqui no Brasil, aquela coisa com gosto de peixe e sem graça. Caviar – e eu nunca tinha comido um verdadeiro caviar na vida – é a ova do esturjão que passa por um processo complexo de pasteurização. Antigamente, o único modo de obter esta iguaria sagrada era matando o peixe, o que levou à quase completa extinção do animal. Hoje, porém, existem técnicas de extração das ovas com uma espécie de massagem capaz de deixar a fêmea viva, o que tem possibilitado o aumento gradual do número desses peixes em vida selvagem. 

 

Há algumas qualidades de caviar, que correspondem às diferentes espécies de esturjão. O mais caro, mais cobiçado e mais saboroso, é o beluga. Comprei um pote de 20g de caviar beluga. Para se ter uma ideia, 20 gramas de caviar beluga é o equivalente a uma colher de sobremesa. Paguei uma quantia que não revelarei para evitar infartos em quem lê. Mas devo dizer: foram os rublos (os dólares, os reais, os meus rins) mais bem gastos da minha vida. O que eu posso dizer? As ovas são firmes, sem serem crocantes. Maiores que aquelas microbolinhas de capelin. O sabor é pura manteiga e em nada lembra peixe. Nem o aroma, nada próximo daquela lata de sardinha aberta que uma ova de salmão gorda e oleosa faz lembrar. O aroma é uma brisa de mar suave. Mas marcante mesmo é a textura e o sabor amanteigado. No todo, é uma comida única, algo que vivi com o sonho de poder provar e que, finalmente, nesta maravilhosa cidade, pude realizar.

 

 

Deixei São Petersburgo após uma intensa estadia. Comi urso, comi o mel que o urso come, e comi caviar (que nada tem a ver com o urso). Visitei o Hermitage, conheci magníficas estações de metrô, e entrei em uma das mais belas igrejas do mundo (a famosa igreja ortodoxa com suas cúpulas coloridas, a Igreja do Sangue Derramado). Em uma loja de souvenires pude fazer amizade com uma simpática russa, Nadia, oriunda da Sibéria. Nádia me explicou sobre o modo russo de não ligar para a política, e de não ligar para quase nada para ser sincero; contou sobre as origens desse comportamento na união soviética e o fato de que hoje os russos só querem que a vida siga. O povo sente a vida cotidiana boa e melhorando e é isso que importa. 

 

 

Deixei a cidade pensando sobre esse jeito russo. Gabi e eu entendemos de cara que o russo segue a vida, e dane-se o que se possa pensar dele. No fundo, há um espírito meio comum de “dane-se tudo, a vida segue”. Nada traduz melhor esse jeito, aliás, do que a seguinte cena que presenciei: dentro do museu, as grandes e imperiais janelas do antigo palácio estavam abertas, enquanto o sol quente entrava impetuoso e lambia obras de arte penduradas na parede; pinturas a óleo antigas duramente expostas ao sol, sem que ninguém parecesse se importar. Dane-se. A vida segue. De preferência, com um pouco de caviar. 

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