Um surpresa gigante em Oslo: Baleias

Estava em Oslo, Noruega. No meio do verão o sol praticamente não se põe. O mais escuro que fica, por volta de uma da manhã, é o equivalente ao fim de tarde por aqui, aquele famoso “lusco-fusco”. Sim, isso mesmo. O dia dura uma eternidade e sua cabeça começa a não funcionar direito. Não importa a hora, o sol está lá, lindo e forte. O corpo está fraco, a cabeça está fraca, você está de mau humor e se pergunta “o que está acontecendo?”. Finalmente olha no relógio e percebe que são dez horas da noite e você não come nada desde o almoço à uma da tarde. Andou o dia inteiro, sem descanso, esperando que o entardecer lhe dissesse a hora de parar; a hora de voltar para o hostel; a hora de jantar. Não. Nada feito. São dez horas e você já está delirando de dores e fome, e ainda está andando na rua. 

 

 Em um desses dias, sentado em um banco de praça, enquanto tento recuperar os sentidos e tomar coragem para usar o que me resta de força para procurar um restaurante (dramático) vejo escrito na fachada de um restaurante: Whale (baleia). Será uma miragem provocada pela fome ou pela falta da noite? Já é tarde. O restaurante está fechado e terei que voltar no dia seguinte. Antes de ir, anoto o nome do lugar para uma rápida pesquisa posterior na internet, assim que estiver de volta ao hostel. 

 

Nilsen spiseri, era o nome. Descubro a inacreditável coincidência: o restaurante havia mudado de lugar naquela mesma semana, e o que vi não passava de uma fachada fantasma, resquícios de um lugar que já não estava mais lá. Tivesse eu estado ali alguns dias depois, muito provavelmente tudo já teria sido reformado e eu nunca teria sabido da existência do tal restaurante. Afinal, a localização atual dele era um pouco distante do centro velho por onde eu andava. 

 

No dia seguinte, com ajuda de um tram, essas maravilhas sobre trilhos que correm pelas capitais escandinavas (e também por outras capitais europeias, como Amsterdam e Lisboa, sejamos justos, ainda que em Lisboa chame-se bonde), percorri algumas paradas até chegar nesta parte um pouco afastada da cidade. 

O restaurante ficava no segundo andar de uma casa, acessível em um lance de escada. Sua decoração não diferia de qualquer restaurante médio pelo mundo. Não era “turisticamente” decorado com nada que fizesse qualquer menção a baleias, ou a cultura vinking, ou a qualquer coisa que transformasse o restaurante em um parque temático gastronômico. Tratava-se apenas de um restaurante que servia bom comida norueguesa, e entre essas, baleia. Interessante.

 

Em um canto do amplo salão vazio (chegamos cedo, eu e minha inseparável parceira de aventuras, a Gabi, minha namorada), havia uma espécie de um pequeno altar com a imagem em madeira de um deus nórdico (talvez Thor? Ou Odin?) e umas oferendas. Aquilo me chamou a atenção. Seria uma verdadeira demonstração religiosa? Parecia que sim. Quando fui para a Escandinávia, em 2017, sabia do movimento de renascimento da antiga religião nórdica, movimento que contava com construção de templos e com cada vez mais adeptos entre as populações de Islândia, Noruega e Suécia. Talvez aquele restaurante fosse gerido ou frequentado por religiosos. Quem sabe?

 

 

Fomos atendidos e, por puro preconceito, acredito que tivemos a pergunta respondida. O garçom era um homem alto, forte, de cabelos curtos e barba loira comprida. Sua barba estava arrumada de modo a formar duas tranças paralelas, amarradas nas pontas com contas metálicas ao estilo viking. Talvez fosse realmente um religioso, ou quem sabe, apenas um entusiasta. Mas, talvez, fosse só um fã de viking metal (depois tente ouvir alguma coisa desse estilo musical). Pouco importa. O rapaz era simpático e nos atendeu muito bem. Fiquei surpreso, no entanto, com o choque que esse viking demonstrou ao saber que eu estava ali em busca de baleia.

 

“Você tem certeza?”, foi a primeira coisa que saiu de sua boca, obviamente em inglês, visto que meu norueguês é tão ruim quanto meu javanês. “Sabe, a carne de baleia é um pouco forte, um pouco diferente. Não é para qualquer um. Nem todo mundo gosta”. Certamente ele achou que fosse desencorajar o pequeno turista desavisado. Pelo amor de Odin, eu deveria ter dito, é exatamente o que eu busco! Se quisesse comer algo familiar, eu ficaria em casa! À minha reação afirmativa, negando qualquer possibilidade de que ficaria melindrado com um sabor diferente, o garçom respondeu com um encolher de ombros que claramente significava em norueguês “por sua conta e risco, meu caro”. Fiquei um pouco ressabiado com a história toda. Era a primeira vez que alguém tentava de fato me desencorajar a comer algo, claramente me subestimando. Desafio lançado. Desafio aceito.

 

Depois de anotar o pedido da Gabi – um bife com fritas qualquer – o garçom fez mais uma anotação referente ao meu pedido, me surpreendendo com uma pergunta um tanto surreal: “qual o ponto da carne?”. Sério mesmo? A vontade foi responder “normalmente como carne de baleia mal passada. Mas isso só às terças” ou “Todo mundo sabe que baleia precisa ser esturricada, não é mesmo? Pelo menos na minha terra só se come assim!”. Que espécie de pergunta era essa? E eu lá tinha como saber qual o melhor ponto do bicho? Engoli a seco todas as possibilidades irônicas de resposta (sob olhares reprovadores da namorada que já esperava algo nesse sentido) e respondi “Bem, como é minha primeira vez, prefiro que você opine sobre isso. Como você gosta? Mal passada? Ao ponto? Você escolhe.” E o simpático garçom, sorrindo, respondeu que não poderia ser mto bem passada, caso contrário ela ficaria muito borrachuda. “Eu mesmo gosto ao ponto”, disse ele. Ótimo. Então ao ponto será.

 

Aguardamos alguns minutos, ansiosos minutos, até finalmente nos presentearem com nossos pedidos. Quase não acreditei que possuía na minha frente um filé de baleia. Assim que fui servido resolvi perguntar que tipo de baleia era aquela. “Mink”, disse o rapaz, acrescentando, após um longo segundo de silêncio, com ar triunfal: “o bom da Mink é que há muitas, então não tem problema se comermos”. Levei um tempo para processar a informação dada com tamanho entusiasmo – o ar surreal da conversa com aquele garçom era marcante.

 

 Hora de enfiar o garfo e a faca. De imediato o cheiro toma conta do nariz: parecia fígado. Sim, fígado como fígado de boi. Se você não gosta de fígado, não vai conseguir chegar perto de baleia. Após um corte no filé, outra sensação estranha, desta vez em relação à cor. Uma carne escura, muito, muito escura. O cheiro de fígado fica ainda mais presente. Normalmente descrevo-a para amigos deste modo: fibrosa como a carne de boi, é possível ver as fibras musculares, mostrando uma carne firme, sendo, porém, macia e muito mais escura que um bife, quase preta. O cheiro, como já disse, é de fígado, e fica-se com a sensação de que se está pondo na boca uma fatia de fígado. Mas não se engane, não é fígado e, portanto não esfarela na boca como tal. Ao colocar a fatia na boca se ganha uma surpresa incrível: a carne possui apenas um leve tom ferroso de fígado, e tem um toque de defumado, ou seja, o sabor nada tem a ver com fígado. Bem macia, também. Além disso, há um final inesperado de... Atum! Sim, após o cheiro inicial de fígado, e um tom defumado que toma conta da boca, ao engolir, sente-se como se estivesse em um restaurante japonês. Fabuloso!

 

 

De fato, meu amigo viking, o garçom do dia, mostrou ser justificada sua preocupação, e acertou em cheio quando disse que esta carne “não era para qualquer um”. Baleia, definitivamente, não é uma carne fácil. Porém, quero dizer que eu, se dependesse de mim, comeria sempre, pois esta mistura de aromas e sabores me foi mais do que bem-vinda. (Ah, e melhor que seja Mink, pois há muitas delas por aí!). 

 

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