Um rápido olhar para a África do Sul: um passeio pela Rota Jardim

Voltei à África seis anos depois de minha primeira visita. Se na primeira vez estive no extremo norte (Tunísia), na segunda vez fui ao extremo sul, com destino à Cidade do Cabo para apresentar uma palestra em um congresso de Psicologia. 

 

 Depois de ter aproveitado minha estadia na cidade, onde além do congresso pude mergulhar com tubarão-branco (devidamente protegido por uma gaiola) e experimentar duas deliciosas carnes de antílope (cudo e impala), segui viagem pela África do Sul, rumo à Johanesburgo, de onde eu partiria para algumas noites de safari no Kruger (parque nacional). Realizei parte do percurso de carro, até Port Elizabeth, passando pela famosa Rota Jardim (Garden Route). Foi nesta rota que pude conhecer um pouco mais deste maravilhoso país e ficar hospedado em uma antiga fazenda colonial. Foi também neste percurso que passei por uma criação de deliciosos avestruzes...

 

Carne de avestruz? Como assim? Eu digo que mergulhei com tubarão-branco e que comi carne de antílope, mas resolvo dar destaque no texto para algo tão comum quanto avestruz? Afinal, avestruz nós temos no Brasil – não que se encontre em qualquer esquina, mas não chega a ser um antílope! Como posso, então, praticamente ignorar algo tão diferente quanto um antílope, para falar sobre algo que se pode provar em um restaurante de estrada na rodovia Mogi-Bertioga? A explicação é simples: o projeto Comendo o Mundo não trata de resenhas culinárias de pratos diferentes, e sim de experiências, de pessoas, de contato com a cultura. Quando comi os antílopes, simplesmente não houve uma boa história, não houve contato com pessoas.

 

Foi em um fim de tarde, após um longo dia da jornada de cinco dias do congresso, que resolvi caminhar pelo Waterfront, um espaço revitalizado da cidade, que contava com um aquário, um centro comercial, alguns restaurantes, lojas, cervejarias, e uma ótima vista do mar. Um espaço feito para o turismo. Estava localizado estrategicamente ao lado do centro de convenções onde ocorria o congresso, o que facilitava a caminhada. Foi lá que achei, quase sem querer, um moderno restaurante de carnes de caça onde se servia tipos de antílope, mais precisamente cudo e impala. Restaurante legal, bonito, em um ponto turístico. Fui bem atendido. Carne gostosa. O cudo é mais macio. Pronto. Claro que foi uma felicidade colocar estas duas carnes na lista de comidas provadas, mas o contexto foi completamente sem graça. Já o avestruz...

 

Na primeira noite cruzando a Garden Route fiquei hospedado em uma fazenda de avestruzes, que também servia como hospedaria. Eu estava vindo da Cidade do Cabo, local cosmopolita, onde a integração pós apartheid parecia até um objetivo fácil, praticamente alcançado com certo sucesso. Lá comprei um cachecol para ajudar a me proteger das noites frias africanas (para as quais eu definitivamente não estava preparado, em razão de pura ignorância em relação ao continente). Escolhi um lindo cachecol, que até hoje me acompanha em viagens, que trazia as diversas cores da bandeira sul-africana, a “nação arco-íris”. Foi usando esse cachecol que entrei no restaurante da hospedaria, ansioso para provar a carne de avestruz. Aparentemente cometi um erro. 

 

 

Foi a primeira vez nesta viagem – mas não a única – que eu tive a sensação de estar em um filme de velho oeste, quando o estranho entra no bar e todos param o que estão fazendo. Todas as pessoas do restaurante pareciam olhar para mim com um olhar de incômodo. Meu companheiro, um sul-africano branco, que já me esperava sentado à mesa, logo me repreendeu. “O que é isso?”, segurando meu cachecol. “Um cachecol com as cores da sua bandeira”, respondi. “Tire isso agora!”. 

 

Aparentemente aquela região, um dos refúgios brancos em um país ainda profundamente dividido, que se esforçava para superar velhas feridas, não era o local certo para mostrar a bandeira da nova nação. “Para essas pessoas, só existe uma bandeira, e não é essa. Essa é a bandeira dos negros”. Definitivamente a Cidade do Cabo havia ficado para trás. Eu estava agora no interior, onde a segregação ainda era uma realidade e a integração, infelizmente, um problema. 

 

Chegou então o filé de avestruz. Algo completamente estranho: uma ave de carne vermelha. Parecia um filé de boi, aliás, especificamente, na aparência, lembrava uma fraldinha. Era uma carne muito saborosa. Mas aquele episódio com meu cachecol me havia tirado um pouco a fome. Comi rápido, saboreei a ave – aparentemente um corte da coxa, onde fica a maior e mais gostosa carne – e dei logo o fora dali. Meu quarto me esperava. No dia seguinte, no café da manhã, pude provar omelete de ovo de avestruz. Uma delícia! Aliás, uma coisa precisa ser dita: diferentes ovos possuem diferentes sabores, ainda que todos possuam aquele toque pungente de umami, um ovo de codorna é incomparável a um ovo de galinha, que não tem nada a ver com um ovo de pata, que é completamente diferente de um ovo de avestruz.  

 

Depois do reforçado café da manhã seguimos para conhecer a fazenda, onde descobri que alguns avestruzes são treinados para correr e... Montei em um!

 

 

A fazenda era uma verdadeira atração turística: tinha até um museu do avestruz, o que incluía uma loja de produtos feitos com pena e couro do animal. Neste museu descobri, entre outras coisas interessantes, que se pode subir ou mesmo pular em um ovo de avestruz – algo que eu pude constatar na prática – pois ele aguenta ser pressionado por alguns muitos quilos sem quebrar. No final, ainda comprei um biltong de avestruz. Biltong é um tipo de carne seca típica da África do Sul, semelhante ao charque, é curada e pode ser feita com diversos tipos de carne. O de avestruz, particularmente, é uma delícia (tão delicioso que costuma ser o único pedido que faço a alguém que viaja. Vai para a África do Sul? Traga-me um biltong de avestruz). 

 

Terminei esta rota de carro em Port Elizabeth. De lá eu pegaria um avião para Johanesburgo. Tinha uma noite na cidade para dar uma volta por suas praias – meu primeiro contato com o oceano Índico. O lugar era muito bonito, porém apresentava para mim o mais chocante vestígio físico do apartheid dentro de uma mesma cidade. Até então, e em toda a minha viagem até o final, eu não havia presenciado e não presenciaria uma divisão tão clara, uma separação tão evidente, tão próxima. Ao caminhar pela orla a partir do meu hotel, as casas imponentes e europeias deram lugar, subitamente, a casebres de madeira mal conservados. Não era uma “piora gradual”. Casas grandes e bonitas, de estilo europeu. Uma rua. Casebres e barracos. Ali ficava a antiga linha divisória negros/brancos. A linha “legalmente” não existia mais, mas ainda estava ali, presente. Imponente. 

 

A África do Sul permanece até hoje um importante espaço de reflexão sobre (des)igualdades, racismo, e, por que não, sobre sermos humanos.  

 

 A noite caía e eu precisava me preparar para o voo na manhã seguinte, rumo a Johanesburgo. Ainda sobrava, porém, tempo para um rápido jantar em um restaurante de frutos do mar. Pedi um prato de moluscos fritos, acompanhados por uma entrada de ostras gratinadas com queijo azul. Ostras gratinadas com queijo azul: Permanece, até hoje, um dos cinco melhores pratos que comi nesta vida. Agora sim, era hora de dormir e esperar o que Joburg (ou Josie, como a chamam os locais) me reservava. 

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